2025
O vendedor de passados, de José Eduardo Agualusa
Acrílico sobre tela · 80 × 120 cm · c / moldura
Em O vendedor de passados, publicado em 2004, Félix Ventura fabrica genealogias e memórias para a nova elite angolana. A encomenda de uma identidade completa torna instável a fronteira entre documento, invenção e desejo. A narração é entregue a uma osga, testemunha que observa os humanos enquanto recorda outras vidas. Por essa voz, Agualusa converte a história recente de Angola numa reflexão irónica sobre memória e construção identitária.
O fundo caleidoscópico é o de uma memória que muda de cada vez que alguém a conta. O padrão remete para uma identidade colectiva angolana feita de passado e das versões que cada época constrói dele. Sobre essa mobilidade, a osga permanece imóvel e vigilante. Os olhos ampliados ligam as duas questões do romance: a fronteira entre facto e invenção e a distância entre a identidade que cada pessoa fabrica e a imagem que os outros lhe devolvem.
Como um ácaro na pele recusa a ideia de que o passado seja um arquivo exterior, consultado por vontade. O que aconteceu instala-se no corpo, quase invisível, e continua a agir sob as identidades que inventamos. Félix vende passados novos; a pintura lembra que nenhum deles começa sobre pele limpa.