2026
1984, de George Orwell
Acrílico sobre tela · 80 × 80 cm · c / moldura
Publicado em 1949, 1984 deixou no vocabulário político expressões como Grande Irmão, novilíngua e duplipensar. A sua permanência não se reduz à previsão de uma sociedade vigiada: o romance mostra como o poder procura controlar os factos, a memória, a linguagem e, por fim, a capacidade de formular pensamento dissidente. Reduzir as palavras disponíveis é reduzir o campo do pensável e, com ele, a capacidade de nomear emoções.
A pintura concentra-se no Quarto 101, onde a tortura não é genérica, mas adaptada ao medo íntimo de cada pessoa. A gaiola assenta sobre uma cabeça seccionada e rígida, semelhante a uma estátua. A figura já não dispõe de rosto, cérebro ou identidade que a protejam. Observa a própria submissão como se o corpo pertencesse a outro. O verde frio cobre o encarnado que irrompe por baixo, sem chegar a apagá-lo.
A artista leu o livro em 1984, quando a distopia ainda podia ser afastada para a prateleira da ficção científica. Hoje reconhece à sua volta o mesmo controlo da linguagem e da verdade, e isso tornou a leitura mais incómoda. A minha tortura nasce da pergunta que ficou desde então: que medo individual a poderia quebrar quando todos os argumentos tivessem falhado?